Fuga



A Noite tinha alguma coisa que o fascinava. Tentava explicar isso de várias formas diferentes. Talvez a forma mais usada fosse que a falta de luz diminuía sua percepção da realidade externa, o que realçava a sua imaginação. Algo como desligar o olho exterior para abrir o interior. 

Na escuridão era tão fácil de imaginar, por exemplo, um jovem inseguro percorrendo as ruínas de uma cidade, na noite forçada por densas nuvens, ouvindo ventos secos e gélidos arranhando os últimos tons de cor da paisagem urbana e sem vida. Conseguia sentir o que o jovem sentia. Seus sentidos sincronizavam-se com pouco esforço. Mas, quando ligava a luz, se encontrava cercado de mesmices. Sob a luz, a figura do jovem na cidade parecia mais uma dessas ilustrações em livros infantis cujas páginas eram viradas rapidamente pelos pequenos leitores.  

Era como se a luz criasse um excesso de fluxo de informações em sua mente. Sentia-se inundado por uma realidade sem graça. Para piorar, essa realidade sem graça insistia em ser real. Era como um monstro incansável do qual não se pode fugir por muito tempo, do qual logo você tem que virar-se para encará-lo e enfrentá-lo. 

Então, fazia o que tinha que ser feito. Enfrentava o monstro o dia todo, suando, pleiteando, até o anoitecer. Aí, desligava a luz. E o monstro não mais o via.
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