Mais do que se pensa


Um... jambeiro. Ele... Hm... Er...

Fez um barulho de impaciência com a língua.

Não... Assim não. Hm... o Roberto? É, o Roberto. Ontem ele estava muito calado. Aconteceu alguma coisa.

Percebeu que era o mais longe que conseguiria chegar no assunto.

Isso tá mais pra fofoca que... Preciso de um tema. Amizade. Eu tenho sido um bom amigo? O que é ser um bom amigo? Hum...

Motivou-se. Poderia ser seu ponto de partida.

Amigo se apoiam juntos, não é? Tem que zelar pela felicidade um do outro... Mas não seria isso para todas as pessoas, mesmo as não-amigas? Mas é diferente!

Estava entusiasmado.

Amigos são pessoas muito mais próximas, por isso aumenta a responsabilidade desse trato de zelar pela felicidade e tal...

Lembranças de conflitos que teve com seus amigos no passado tomaram sua mente por alguns momentos. Antes que percebesse, estava com raiva. De repente levantou a cabeça como se tivesse acabado de acordar.

Não, emoções deturpam os pensamentos! Preciso esquecer...

Olhou aos redores procurando algo que o fizesse esquecer de sua raiva. Seus olhos pousaram numa interessante caçada de uma osga próxima a uma luz acessa que embebedava os insetos ao redor. O espetáculo terminou com o pertubador som das asas de um inseto moribundo na boca de seu carrasco. Embora estivesse torcendo para a osga - simpatizava com a cara das osgas -, sentiu pena do inseto. Tinha culpa se a luz o embriagava? Imaginou como seria se as pessoas perdessem seu comportamento normal simplesmente por olharem algumas coisas.

Será que não perdemos? Não... acho que é um exagero... Nós demoramos mais para perder a razão... acho. Não, com certeza, pô, concluiu, lembrando que o inseto nem sequer percebeu o gigante - em comparação a ele mesmo - predador, mesmo a osga estando em plena luz...

Mas se é a luz que confunde o inseto, então...

Inclinou sua cabeça, confuso. Achou que sua compreensão dos personagens daquele episódio animal era pequena demais para continuar com a reflexão. Mesmo sobre quando os personagens eram humanos, sentia que sua compreensão não era suficiente. Sentiu-se frustrado consigo mesmo, ou talvez com seu cérebro... ele não sabia se podia separar as duas coisas.

Mas se meu cérebro fosse eu, eu não ficaria tão confuso... Ou talvez...

Achou que a única conclusão satisfatória em que chegou em todo aquele momento foi que pensar era mais complicado que pensava. Passou a observar a osga, agora satisfeita, imóvel na parede. Simplesmente parada. Talvez fosse passar a noite toda assim. Olhou-a por alguns minutos. Levantou-se, e foi dormir.

3 comentários:

Leitor disse...

Apenas uma consideração tenho a deixar. Ao entrar no SS! e ver um post, me senti embriagado, no sentido mais poético da palavra. Parabéns, Rac! Seu texto - como sempre - ficou pai d'egua!

Nilce Silva disse...

É realmente muito bom ler esses textos. Me servem de grande referêcia. Afinal, amo o cotidiano, rotina.

Anônimo disse...

É difícil descrever o sentimento de prazer que sinto ao ler seus textos. Obrigada por escrever tão bem.

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