Direito me estragando

Kelsen pra cá, Kant ali, Bobbio no meio-campo e Ruy Barbosa na prancheta. Droga. Não consigo pensar em mais nada, nas horas vagas eu durmo. Daí vou ler um Mário Quintana pra descontrair e... NÃO POSSO! NÃO POSSO!

Vida bandida... NÃO! NÃO!


Abriu a porta e entrou.

A primeira coisa estranha que percebeu naquele lugar foi o dó. Bem grave. Algum órgão tocava um dó bem grave, fazendo com que tudo parecesse ter um significado obscuro por detrás das aparências. O próprio lugar devia ter um significado obscuro. Ouvindo aquele dó, ninguém tinha dúvidas disso.

A segunda coisa estranha que percebeu naquele lugar foi o espelho. Não preciso falar sobre como um espelho torna um lugar obscuro. O espelho dá a sensação de que é uma janela para o desconhecido, de que a qualquer momento o seu reflexo pode simplesmente agir por conta própria.

A terceira coisa era o vento. Vento soprando por uma janela aberta e fazendo sons estranhos pela acústica do lugar. Para piorar, a janela tinha cortinas rasgadas que balançavam fantasmagoricamente, e uma porta em algum lugar fechava e abria com o vento. Achou isso desnecessário, o dó por si só já tornava o lugar suficientemente estranho.

A quarta coisa estranha que notou foi o vidro. O vidro de uma das janelas estava embaçado, mas era possível distinguir palavras escritas ali. Algo como "tão frio".

Teria notado muito mais coisas ainda, como as baratas, os ruídos que vinham do chão, a cadeira com correntes e marcas de arranhões, e os quadros de cabeça para baixo, se a mulher sem olhos e com presas de mamute a sua frente não tivesse o matado naquele momento.

Tadinho


Surrado, esquecido e mal alimentado, tadinho. E o fato de lhe caracterizarem como "tadinho" só mostrava como ainda não levavam sua situação a sério. Também, com um nome daquele, pensavam para acalmar a consciência os que tinham consciência disso. Mas o pior é que tinham razão. Pô, com um nome daqueles...

E, com pensamentos hostis como o meu, foi tentando sobreviver nessas condições precárias. Condições estas que causavam indignação dos que não tinham poder sobre ele sobre os que tinham. Irresponsabilidade, isso, deviam pensar eles. Decretemos uma tabela de horários aos seus donos!, deviam pensar eles. Nome palha, pensavam eles. Deviam ter razão. Melhor era ser sem nome.

Revoltante. Depois de muita insistência, os donos alimentaram-lhe, sorrindo e murmurando bobagens como "aprendemos a lição". Mais ignorada que o pobre abandonado foi essa lição. Depois desta encenação, voltaram para suas vidas de descaso, para seus mundos frios que tinham crueldade como lei e as páginas de O Príncipe como travesseiro.

Por seis meses ficou abandonado. Seis meses. Os indignados, impotentes, retiraram-se para não entristecerem-se com seu fatal sofrimento e com as lembranças melancólicas de seus tempos de glória. Por seis meses ficou com a mesma aparência estática, que tentou ser escondida pelos seus donos com uma mudança de roupa. Revoltante.

Sabe o que eu faria com esses responsáveis se aparecessem de novo com aquele mesmo papo? Ficaria de olho. Faria questão que não conseguissem fugir de novo. Que cuidassem dele até o fim, seja lá o que o "fim" signifique nesse caso. Seguiria tudo de pertinho, botando pressão para que fizessem a coisa certa. Comentaria e criticaria cada ação deles para com o miserável, todo dia. Todo santo dia. Não me acho super generoso e altruísta por pensar assim. É o dever de todo humano, humano como eu e você. É o que qualquer pessoa de bem pensaria, como eu e você.

Assim como você.
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