Você nem deve estar acreditando



Passei pelo blog relutante. O ser humano tem a incrível capacidade de só realmente se dar conta de algum defeito seu, por mais gritante que seja, quando alguém o aponta e o identifica. Por exemplo. Se seu amigo vai a sua casa, aponta para o seu sofá e diz "isto é um sofá", você logo o ridiculariza com uma ironia. Mas se ele aponta para você e diz "você sabe a verdade, mas a ignora ou não lhe dá a devida atenção por não lhe parecer ser proveitosa, logo você é desonesto", você rasga suas vestes e se torna seu discípulo ou o ignora e não lhe dá a devida atenção por não lhe ser proveitoso. Sendo que ele nada fez de diferente e de menos óbvio do que chamar o sofá de sofá.

O que nada tem a ver com minha relutância.

Estava relutante de passar por aqui pelo medo de encontrar uma série de xingamentos e ameaças exigindo posts e decretando tabelas fixas de datas de postagens. O que não iria ser tão ruim, mas não me seria muito proveitoso. Sou agora como alguém que, depois de ser prisioneiro de um profundo calabouço escuro e sem vida, depois de ser sujeito a trabalhos forçados, depois de ter um futuro incerto e sombrio e de só ver luz pela fresta de sua cela, conseguiu fugir, venceu os obstáculos, viu pela primeira vez a luz do sol e as colinas verdes cheias de vida - ouvindo The Great Gig in the Sky - e - pô - descobriu que aquilo não era muito melhor. O ócio deve ser usado com cuidado. Um cuidado que ainda não aprendi a ter.

Uma tabela de tarefas não iria ser uma coisa ruim então. Mas tem um problema: o ócio é cruel. Ou talvez seja apenas burrice minha mesmo, e eu esteja culpando o ócio por me ser mais proveitoso. Mas o que acontece é que, ao mesmo tempo em que quero fugir de suas garras, a preguiça grita mais alto do que esta vontade. É um plano cruel e infalível: A coisa de que você quer fugir é a mesma coisa que lhe motiva a não fazê-lo. Logo, ao mesmo tempo em que penso que uma tabela seria algo edificante para me livrar da inatividade, me lembro que para fazer uma tabela é preciso papel, e que o papel está lááááá na impressora, e desanimo. Ao leitor indignado que está pensando que o ócio me transformou num vegetal, explico que a tabela, o papel e a impressora são metáforas.

Mas serei honesto com vocês: este post todo é uma farsa. Bom, talvez não uma farsa, mas um aumentativo da verdade, que por esse mesmo aumentativo deixou de ser verdade. Não, eu não virei um vegetal, posso pegar papel na impressora na hora que quiser (embora admita que fazer uma tabela está além de meu poder energético). Como já havia mencionado em um post, mesmo que uma pessoa pareça ser o melhor dos referenciais inerciais ela pode estar em plena atividade mental, que é a melhor das atividades. Não digo que estou em minha "plena atividade", mas ainda estou muito mais ativo que qualquer vegetal. Até criei várias histórias, acreditem. Históriaszaças. Mas que nada tem a ver com o blog, ou até com livros. Talvez com filmes, animações japonesas ou jogos. Não que eu esteja esperançoso quanto a isso, mas são divertidas ainda assim.

O que eu queria dizer quando disse que seria honesto com vocês e comecei a enrolar pelo resto do parágrafo, é que não enrolei só nele. Todo este post é enrolação. Passei muito tempo sem postar, estou meio enferrujado, as palavras custam a sair e quando saem embaralham-se em frases sem sentido para zombar de mim. Tenho que aprender a domá-las, ou, como fazia antes, fazer um acordo com elas para que quem as leia pense que eu as domei. Assim, preciso recomeçar a escrever, mesmo que seja enrolação. Claro, podia desenferrujar escrevendo sobre temas como o Universo, o Tempo, a Vida e a Verdade como eu fazia antigamente, mas não me seria muito proveitoso lhes dar atenção.
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