Porque sempre caio nessa?

Certas coisas não entendemos - e isso é fato - certas modas, por exemplo. Tenho notado - e como tenho! - uma onda de citações literárias, uma onda de Caio Fernando Abreu! O porquê disso eu ainda não sei. Quem começou? Quem espalhou? Quem é o responsável? Como o descobriram ? Não falo dos de antes ou dos leitores regulares - o que são leitores regulares? - falo dos de agora, dos jovens, das meninas...dos usuários do Facebook. Caio Fernando Abreu por toda parte. 
Pela primeira vez que li achei que tinha sido alguma blogueira, alguma adolescente, mas pensei bem, na verdade pensei só um pouco mais e deduzi: não é só uma adolescente, é uma adolescente de uns 16 anos. Ledo engano. Mas deve-se saber, que, com cautela, pra falarmos de um autor devemos lê-lo. Fi-lo. Não resisti muito. Me rendi. Voltei a ler Quintana. "Chega de me doer".

Certa vez tive um blog...


   Certa vez, com um amigo, criei um blog. Certa vez. Acho, pessoalmente, que não posso dizer quão certa era a oportunidade, mas aproveitei. Sim, eu aproveitei. Achava que escrever qualquer coisa sobre qualquer coisa e forçar um pouco a barra - e como forçava - ah...eu achava fantástico. Hoje não acho. Pensava que faria sucesso, mas só meus amigos comentavam, só os verdadeiros amigos.
   Certo dia apareceu um seguidor, um desconhecido. Quem era? Não sei até agora, mas também tinha um blog, o qual foi excluído certo tempo depois. Bastard era o nome. Era. Depois veio outro, o qual também sumiu. Vale dizer que o primeiro blog excluído foi excluído por sabe-se-lá-quem, tal qual o segundo. Eu e meu amigo Rac'meg admirávamos o tal blog Bastard. Um cara que escrevia bem, pra ninguém ler, com regularidade e por considerável tempo. Porque? - Perguntávamos. Mas daí que sumiu o blog do cara e o cara que seguia o blog. A gente esqueceu.
   Passado o tempo - não exatamente o tempo todo, só o tempo entre aquilo e o que se seguiu - o nosso humilde blog mudou. Mudou, mudou, mudou. Ficou mais bonito, mais seguidores (ainda que poucos), mais...sei lá. O blog mudou, depois emudeceu. Fez lá seus gracejos uma vez e outra, mas agora voltou.
Eu sinceramente penso: será outro?

Direito me estragando

Kelsen pra cá, Kant ali, Bobbio no meio-campo e Ruy Barbosa na prancheta. Droga. Não consigo pensar em mais nada, nas horas vagas eu durmo. Daí vou ler um Mário Quintana pra descontrair e... NÃO POSSO! NÃO POSSO!

Vida bandida... NÃO! NÃO!


Abriu a porta e entrou.

A primeira coisa estranha que percebeu naquele lugar foi o dó. Bem grave. Algum órgão tocava um dó bem grave, fazendo com que tudo parecesse ter um significado obscuro por detrás das aparências. O próprio lugar devia ter um significado obscuro. Ouvindo aquele dó, ninguém tinha dúvidas disso.

A segunda coisa estranha que percebeu naquele lugar foi o espelho. Não preciso falar sobre como um espelho torna um lugar obscuro. O espelho dá a sensação de que é uma janela para o desconhecido, de que a qualquer momento o seu reflexo pode simplesmente agir por conta própria.

A terceira coisa era o vento. Vento soprando por uma janela aberta e fazendo sons estranhos pela acústica do lugar. Para piorar, a janela tinha cortinas rasgadas que balançavam fantasmagoricamente, e uma porta em algum lugar fechava e abria com o vento. Achou isso desnecessário, o dó por si só já tornava o lugar suficientemente estranho.

A quarta coisa estranha que notou foi o vidro. O vidro de uma das janelas estava embaçado, mas era possível distinguir palavras escritas ali. Algo como "tão frio".

Teria notado muito mais coisas ainda, como as baratas, os ruídos que vinham do chão, a cadeira com correntes e marcas de arranhões, e os quadros de cabeça para baixo, se a mulher sem olhos e com presas de mamute a sua frente não tivesse o matado naquele momento.

Tadinho


Surrado, esquecido e mal alimentado, tadinho. E o fato de lhe caracterizarem como "tadinho" só mostrava como ainda não levavam sua situação a sério. Também, com um nome daquele, pensavam para acalmar a consciência os que tinham consciência disso. Mas o pior é que tinham razão. Pô, com um nome daqueles...

E, com pensamentos hostis como o meu, foi tentando sobreviver nessas condições precárias. Condições estas que causavam indignação dos que não tinham poder sobre ele sobre os que tinham. Irresponsabilidade, isso, deviam pensar eles. Decretemos uma tabela de horários aos seus donos!, deviam pensar eles. Nome palha, pensavam eles. Deviam ter razão. Melhor era ser sem nome.

Revoltante. Depois de muita insistência, os donos alimentaram-lhe, sorrindo e murmurando bobagens como "aprendemos a lição". Mais ignorada que o pobre abandonado foi essa lição. Depois desta encenação, voltaram para suas vidas de descaso, para seus mundos frios que tinham crueldade como lei e as páginas de O Príncipe como travesseiro.

Por seis meses ficou abandonado. Seis meses. Os indignados, impotentes, retiraram-se para não entristecerem-se com seu fatal sofrimento e com as lembranças melancólicas de seus tempos de glória. Por seis meses ficou com a mesma aparência estática, que tentou ser escondida pelos seus donos com uma mudança de roupa. Revoltante.

Sabe o que eu faria com esses responsáveis se aparecessem de novo com aquele mesmo papo? Ficaria de olho. Faria questão que não conseguissem fugir de novo. Que cuidassem dele até o fim, seja lá o que o "fim" signifique nesse caso. Seguiria tudo de pertinho, botando pressão para que fizessem a coisa certa. Comentaria e criticaria cada ação deles para com o miserável, todo dia. Todo santo dia. Não me acho super generoso e altruísta por pensar assim. É o dever de todo humano, humano como eu e você. É o que qualquer pessoa de bem pensaria, como eu e você.

Assim como você.

Você nem deve estar acreditando



Passei pelo blog relutante. O ser humano tem a incrível capacidade de só realmente se dar conta de algum defeito seu, por mais gritante que seja, quando alguém o aponta e o identifica. Por exemplo. Se seu amigo vai a sua casa, aponta para o seu sofá e diz "isto é um sofá", você logo o ridiculariza com uma ironia. Mas se ele aponta para você e diz "você sabe a verdade, mas a ignora ou não lhe dá a devida atenção por não lhe parecer ser proveitosa, logo você é desonesto", você rasga suas vestes e se torna seu discípulo ou o ignora e não lhe dá a devida atenção por não lhe ser proveitoso. Sendo que ele nada fez de diferente e de menos óbvio do que chamar o sofá de sofá.

O que nada tem a ver com minha relutância.

Estava relutante de passar por aqui pelo medo de encontrar uma série de xingamentos e ameaças exigindo posts e decretando tabelas fixas de datas de postagens. O que não iria ser tão ruim, mas não me seria muito proveitoso. Sou agora como alguém que, depois de ser prisioneiro de um profundo calabouço escuro e sem vida, depois de ser sujeito a trabalhos forçados, depois de ter um futuro incerto e sombrio e de só ver luz pela fresta de sua cela, conseguiu fugir, venceu os obstáculos, viu pela primeira vez a luz do sol e as colinas verdes cheias de vida - ouvindo The Great Gig in the Sky - e - pô - descobriu que aquilo não era muito melhor. O ócio deve ser usado com cuidado. Um cuidado que ainda não aprendi a ter.

Uma tabela de tarefas não iria ser uma coisa ruim então. Mas tem um problema: o ócio é cruel. Ou talvez seja apenas burrice minha mesmo, e eu esteja culpando o ócio por me ser mais proveitoso. Mas o que acontece é que, ao mesmo tempo em que quero fugir de suas garras, a preguiça grita mais alto do que esta vontade. É um plano cruel e infalível: A coisa de que você quer fugir é a mesma coisa que lhe motiva a não fazê-lo. Logo, ao mesmo tempo em que penso que uma tabela seria algo edificante para me livrar da inatividade, me lembro que para fazer uma tabela é preciso papel, e que o papel está lááááá na impressora, e desanimo. Ao leitor indignado que está pensando que o ócio me transformou num vegetal, explico que a tabela, o papel e a impressora são metáforas.

Mas serei honesto com vocês: este post todo é uma farsa. Bom, talvez não uma farsa, mas um aumentativo da verdade, que por esse mesmo aumentativo deixou de ser verdade. Não, eu não virei um vegetal, posso pegar papel na impressora na hora que quiser (embora admita que fazer uma tabela está além de meu poder energético). Como já havia mencionado em um post, mesmo que uma pessoa pareça ser o melhor dos referenciais inerciais ela pode estar em plena atividade mental, que é a melhor das atividades. Não digo que estou em minha "plena atividade", mas ainda estou muito mais ativo que qualquer vegetal. Até criei várias histórias, acreditem. Históriaszaças. Mas que nada tem a ver com o blog, ou até com livros. Talvez com filmes, animações japonesas ou jogos. Não que eu esteja esperançoso quanto a isso, mas são divertidas ainda assim.

O que eu queria dizer quando disse que seria honesto com vocês e comecei a enrolar pelo resto do parágrafo, é que não enrolei só nele. Todo este post é enrolação. Passei muito tempo sem postar, estou meio enferrujado, as palavras custam a sair e quando saem embaralham-se em frases sem sentido para zombar de mim. Tenho que aprender a domá-las, ou, como fazia antes, fazer um acordo com elas para que quem as leia pense que eu as domei. Assim, preciso recomeçar a escrever, mesmo que seja enrolação. Claro, podia desenferrujar escrevendo sobre temas como o Universo, o Tempo, a Vida e a Verdade como eu fazia antigamente, mas não me seria muito proveitoso lhes dar atenção.
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