Você


Aconteceu uma coisa engraçada hoje. Engraçadíssima.

Eu estava com uma afta na língua, dessas de tirar vontade de falar e de comer. Até aí tudo bem, não sou muito bom de boca nem de papo mesmo. Mas hoje eu dava a tradicional e bem-vinda dormida depois do almoço, sonhando sei lá o quê. Nesse sonho eu mastigava alguma coisa. Acordei quando inconscientemente mordi a já mencionada ferida na língua com precisão cirúrgica.

Se não sou bom de papo nem de boca, existe algo em que sou expert. Adoro refletir sobre coisas que normalmente as pessoas veriam, classificariam como passageiras e inúteis – com razão – e deixariam passar. Então não deixei esta fútil mordida na língua já quebrantada passar em branco.

Somos reféns de nós mesmos, isso é o que somos. O que você chama de “eu” é apenas o seu “eu” consciente. Eu não escolhi o que eu estava sonhando. Eu não tive a opção, uma vez dentro do sonho, de não mastigar a desgraçada da língua. O “eu” daquele sonho provavelmente não dava a mínima para a presença de uma úlcera na língua do “eu” consciente. Aquele “eu” devia viver em seu mundinho particular e temporário, mastigando algo por motivos que nenhuma pessoa na face da terra jamais vai saber. Um egocêntrico, isso é o que ele é. Aquele “eu” foi criado na minha mente, fez-me morder-me, e sumiu. Aí entra outro personagem nessas minhas divagações inúteis: minha mente.

É estranho. Nós normalmente justificamos as ações involuntárias do nosso corpo e mente como se não fossemos nós. Como por exemplo, naquela vez em que você levou um susto enquanto segurava um copo de água, derramando-o na cara da pessoa de maior autoridade nos arredores, você deve ter dito algo como “foi reflexo”. Essa é sua desculpa: não foi você, foi reflexo. Mas se não foi você, quem foi? Foi sua mente agindo sozinha. E quem é você, se sua mente não for? É o seu corpo? O seu corpo não inclui a sua mente? Seria você então apenas a parte consciente de sua mente? E quem é a outra parte?

O seu corpo então abrigaria dois hospedeiros: você e um outro alguém misterioso. Você pode até tentar orgulhar-se pensando que tem mais controle sobre seu corpo do que este outro alguém. Afinal, você pode, por exemplo, levantar o indicador agora e ninguém dentro de você irá impedi-lo disso. Mas pense melhor. Você consegue dormir no instante em que decide dormir? Ou adiar o sono se as circunstâncias não o permitirem? Ou a fome? Ou a sede? Consegue, ao bater o cotovelo na quina de uma mesa, dizer simplesmente “está bem, essa dor é sinal de que preciso proteger meus cotovelos com mais cuidado, entendi a mensagem” e parar de sentir dor no mesmo momento? Ou, num momento de crise alérgica, dizer “é só camarão, é gostoso e não faz mal, me deixa quieto!”?

Aí está: você não consegue. Existe um déspota dentro de você, e você nem sabia. Ele lhe controla astuciosamente usando hormônios e estímulos nervosos. Escolhe seus sonhos, seus reflexos, e o faz agir, várias vezes, de forma irracional. Ele controla seu estado de humor, lhe deixando inconstante.

Você pode até conseguir dominá-lo em parte, mas se sentirá exausto, e ele arranjará um modo de lembrá-lo de que você não é a única coisa dentro de você. Afinal, você precisa dele. Existem coisas que você não sabe fazer, e ele sabe. Todas aquelas maluquices de metabolismo e defesa contra agressores que você finge que aprende na escola, ele faz de olhos fechados. Às vezes meio errado, mas mesmo assim. E por causa disso, ele acha que tem o direito de controlar um pouco do setor que devia ser seu. Quer mostrar sua autoridade. Seu tamanho. Sua importância. Você, coitado, além de ser prisioneiro de seu corpo, é refém de sua mente.
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