Egoísmo


Era um cara egoísta, o Carlo. Um dia, quando era menor, apareceu um cachorro minúsculo em sua rua, despertando os instintos infantis de malícia nas crianças de lá. Carlo foi correndo socorrer-lhe, causando uma confusão que atraiu os olhares dos vizinhos. Todos ficaram muito comovidos com a coragem da criança em rebelar-se contra seu grupo em prol do bichinho. Recebeu muitos olhares admirados e orgulhosos naquele dia, e Carlo adorou aquilo. Salvaria qualquer cachorrinho por um olhar daqueles.

Cresceu assim, devolvendo o excesso de troco que recebia na padaria do bairro, devolvendo a carteira que deixaram cair, dando comida aos pássaros da praça, ajudando a professora a carregar o material... Chegou a pedir para o seu pai para participar de uma ONG de ajuda aos desabrigados no terremoto do Chile. Sabia que ele iria negar, mas não sem antes passar a mão orgulhosamente em sua cabeça. Adorava a recompensa que recebia por tudo aquilo. Até que, certo dia, descobriu outra coisa que adorava.

Ouviu um pintinho piar bem alto no quintal de sua casa. Reconhecendo o grito “mamãe!” naquele vocábulo galináceo, carregou-o e o levou de volta ao quintal da vizinha, a única da rua que tinha galinhas. Lá, o galinho encontrou sua mãe e abrigou-se felizmente embaixo de sua asa. Embora ninguém estivesse testemunhando aquilo, Carlo sentiu recompensado vendo aquela cena, e descobriu naquela felicidade infantil da pequena ave uma nova forma egoísta de alegrar-se: ajudando os outros mesmo sem testemunhas oculares por perto. Mal podia esperar a fazer aquilo com pessoas.

Adolescente, Carlo encontrou a oportunidade que esperava na escola. Uma amiga sua – seu conceito de “amigo” era “instrumento de obter felicidade e satisfação comigo mesmo” – estava chorando por uma nota ruim. E ele não perdeu a oportunidade. Depois do intervalo, ela recebeu um pequeno envelope feito manualmente, onde estava escrito:

Não se maltrate
Que na vida há tanto
Para o que sorrir
Como este...

Dentro do envelope, um chocolate daqueles que os comerciais sempre mostram como sinônimos de vida feliz. A menina corou, espantada, olhou ao redor e encontrou o sorriso de Carlo, que levou o indicador à boca fazendo um sinal de “não fale pra ninguém, ok?”. Sem saber como reagir, sua amiga simplesmente sorriu. Um sorriso puro, que vinha de dentro, que se encaixou perfeitamente com a última lágrima que caiu de seus olhos naquele dia. “Tou ficando bom nisso”, pensou Carlo.

Era um cara bem egoísta, ele.

Roubou meu coração

 Toda as manhãs eu a via passar com sua cadeira de plástico e metal, sua pele acidentada, cabelos nunca bem cuidados, corpo encurvado, camisetinha de renda, andar manco e *sorrisinho de canto de boca. Não havia como não se apaixonar por ela: a obra-prima do evolucionismo, que passa pra esquina e lá senta. 
 Na esquina ela fica com sua bolsa, vermelha e bem rodada - e eu a vejo da janela. Não é convencida por coisa alguma, senão algum dinheiro.
 Meu coração ja deveria ser tirado. O médico o pôs na mesa e ela de alguma forma estava em minha sala. "Como?" eu não sei.Aquela bandida, meu coração à mesa e ela, conduzida pela vontade foi até o orgão...e o tocou. Porém nada mais fez. Moveu-se algumas outras vezes à visitar-me. A desgraçada me roubou.
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