Criança de Pedra


Os olhos que olham: parados
A boca que pergunta: parada
A caneta que escreve: parada
Alma ansiosa e angustiada!

Bate a campa
Os pés dos seus colegas dançam no intervalo
E o seu rosto, como o de quem se espanta:
Suas bocas cantam, só eu que me calo?

Chega em casa
Na estante, as bonecas abandonadas
No vaso, as flores quase secas
Rosa seca, seca a vida
Não servem mais para nada, pobres bonecas!

Abre o caderno
A caneta azul escreve vermelho
Os olhos jovens vêem cinzento
O corpo, esquecido e em desespero
Afogado e desolado mar adentro

Acorda
Na janela o sol não veio
Nas árvores, os pássaros não cantam
Na mente, a criança foi esquecida
Nos tempos esquecidos que encantam

Bate a campa
Os pés dos seus colegas dançam no intervalo
E a criança revolucionária, na sala se levanta
Fecha os livros com um estalo:
Na desgastada mão, o sangramento estanca

Na purificada mão, um pincel atômico
Desenha no quadro desenhos de criança:
Pessoas mal feitas dando as mãos
Um sol oval sorrindo para nuvens
Que mais parecem sonhos vagos na lembrança
Que nunca foram vividos, mas que importa?
Antes sonhos perfeitos a uma vida torta

Mas bate a campa, o professor está à porta
E os pobres olhos da recém-criança
Viram seus sonhos, suas fantasias e aventuras
Apagados,
Substituídos por matemáticas figuras!
 Você chega à sua casa, tarde da noite, adentra a sala e se depara com um Ilhema de óculos, lendo o Mein Kampf, assentada em um poltrona preta reclinável de frente pra você.
 O que você faz? Conta de um a dez.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
 Você diz:
- Boa noite.
- Hoje a noite não tem luar. - Disse o Ilhema - o que você está esperando, filho?
Então você calmamente responde:
- A água .
- Que água, filho?
 Faz-se um silêncio de cinco minutos.O Ilhema passa uma mão sobre a outra, você hesita. Sua mente galopa campo afora, sua língua enrola, seu queixo treme, seus dentes batem.

" A vizinha toda nua
 da janela
 congela  a rua"

 Então a resposta vem como uma impetuosa avalanche de sentimentos carnais, uma chuva de emoções, uma torrente de comoções que vem de dentro pra fora rasgando o peito.
- A água.
- Era tudo que eu queria ouvir.





Nota: O que é um Ilhema?
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