Aquilo que ninguém vê


Uma cena meio besta, talvez:

Tinha uma pedra no meio do caminho dela. No meio do caminho dela tinha uma pedra. Ele, um miserável, tirou a pedra de lá.

O que o motivava quando fez isso?

“Ora, a presença da pedra ali iria atrapalhar a passagem dela.”

Então por que não fazia isso quando ela estivesse olhando, para assim ganhar os louros da boa ação?

“Sei da aparência que tenho. Sou miserável, e em mim não há nada que agrade um olhar. Boa ação ou não, a falta de beleza seria meu carrasco, e em vez de louros, ganharia os leões.” Foi o que ele respondeu para si mesmo, mas as perguntas não paravam.

Ninguém veria sua ação. Mais que isso, ela não a veria. Ela passaria pelo caminho sem nem imaginar que ali havia um obstáculo, e que este foi retirado por alguém. Um alguém anônimo. Um anônimo que lhe tinha em alto preço.

E se ele apenas deixasse a pedra do lugar? Logo a removeriam, e a vida continuaria.

“Mas”, replicou ele, “e se ela vier a se fatigar durante a remoção do obstáculo; onde iria enxugar seu suor, nas minhas vestes empoeiradas? Pois como posso evitar essas gotas de enfado, se não o fizer, terei que pagá-las. E se, ainda pior, por causa da pedra, viesse a ocorrer alguma tragédia, e ela perdesse a luz de seus olhos; onde iria se consolar, nos meus ombros ossudos?”

Mas ela devia ter outras mãos para lhe auxiliarem, outras vestes que lhe enxugassem e pagassem seu o suor, e ainda outros ombros para deitar a cabeça, e não precisaria dos dele.

Então, calado e sem testemunhas, ele deixa a cena, que mesmo sem possíveis enfados, nem possíveis tragédias, não deixa de ser um tanto cruel.

Seu amigo beija uma garota...

Você e seu amigo caladão, magro e nerd estão conversando como quase todos os dias, então chega aquela que é destruidora de situações e criadora de outras. Uma garota de sorriso atraente, belos olhos e jeito encantador. Moça que é motivo de disputas e dicussões, tema recorrente nas conversas dos mais novos. Essa mesma moça chega, e num ato totalmente inimaginável, beija seu amigo. Porque isso aconteceria? Eis algumas possibilidades:


1 - Ele é, na verdade, um multimilionário, que pode ter o que quiser. Com dez mil dólares comprou amor.

2 - Ele é o cara mais safo da colégio e ela a mais bonita; ele tira boas notas e ela precisa de boas notas; ela é muito esperta e ele é besta pra mulheres.

3 - Ele tem um carro.

4 - Eles se apaixonaram verdadeiramente e agora fugirão para Barbados. Viverão de não sei o quê,  mas terão uma casa na praia.

5 - Se conheceram no Haiti, em uma ONG voluntária. Ela se apaixonou quando o viu tirar dois homens adultos de uma fissura com apenas o braço esquerdo.

6 - Ele era modelo de lingerie feminina quando 1 2 3 4 5 6  .

7 - Ele elogiou a bolsa dela com a mão formando 90 graus com o pulso.

8 - HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

 9 - Ele consegue lamber o cotovelo com as mãos pra trás.

10 - O sobrenome dele é Bond, James Bond.

11 - Ele fez aquilo só para impressionar. Pretende largá-la no outro dia

12 - Ele nasceu em setembro.

13 - Seu pai se chama Juan Carlos.

14 - Atende o telefone com a mão esquerda toda vez que chove

15 - Ele tem uma barriga tanquinho e ela queria lavar a roupa.

16 - É costume das suecas

17 - Ela nasceu em 6 meses.

18 - Ele em 12.

19 - Ele usava uma camisa dos Beatles. Ela preferia Beach Boys, mas - pô - ele era um gato.

20 - Uma vez Power Rangers...sempre Power Rangers.

21 - Ela não sabia geometria plana. Ele sabia.

22 - As ondas de amor irradiadas por ele faziam refração no peito dela.

23 - Ele era magro e estava contra luz, ela não o viu.

24 - Não adiantava fugir, era o destino.

25 - 23 =2

26 - Ela adora homens peludos.

27 - Certa vez ela o viu sem camisa, foi a tacada certa.

28 - Foi tudo um sonho.

29 - Ele estava fazendo moonwalk na escada, tropeçou nela e caíram, apaixonados.

30 - He was dancing the moonwalk on the stairs, when he stumbled on her and they fell...in love.

Conceitos, quem liga?


Toda ação social tem um valor estabelecido pela sociedade, mas sem ser por isso menos importante para o indivíduo. Era o que pensava Pedro, ou o "Pedrão", de dez anos, vítima do grande paradoxo vivo até os dias de hoje de atribuir aumentativos à crianças.

Pensou isso num aniversário de um amigo, o Paulo, que também era companheiro de ordem de chamada (21 e 22) e de ideias.

Quando, ao invés de dar parabéns, Pedro apenas o cumprimentou com um movimento do queixo, seu amigo não estranhou, nem ficou ofendido de maneira alguma. Eram crianças sérias, não precisavam disso. Mas Patrícia ("Pobre Patrícia", dizia Pedrão com pena, suspirando) não concordava. Aniversário era um só no ano ("Assim como um dia qualquer aí, como 23 de abril, que nem por isso é comemorado. Só, talvez, na Gâmbia.", disse Pedro). As pessoas não eram máquinas de ferro, precisavam de vez em quando de uma comemoração ("Isso quem vai dizer são as experiências que moldaram o indivíduo. Alguns precisam, outros não.", respondeu Pedro). Se eles fossem tão frios assim, não seriam felizes ("O conceito de felicidade de que falas é o criado pelo seu meio social-produtivo, não o absoluto.", questionou Pedro).

E acabou assim. Patrícia foi para seu lado ainda contrária ao modo de agir de Pedro, recebendo apenas seu olhar de compaixão por alguém tão facilmente manipulado.

O Homem é complicado. Era o que pensava Pedrão poucos meses depois, no seu aniversário. Quem entendeu quando ele ficou chateado por não receber parabéns de Patrícia? Só o Paulo. Fora entendido erroneamente pelos colegas, que lhe chamaram de "hipócrita" com palavras mais infantis. "Eles não entenderam nada", refletiu Pedro quando foi embora da escola de cabeça baixa. Não era do "parabéns" em si que sentiu falta, mas do valor o qual sabia que Patrícia tinha neste. Mas quem liga para conceitos de sociologia? Só Pedro e Paulo, mesmo.

Radigunda


Bateu a campainha que iniciava o intervalo entre as aulas. Para evitar o barulho dos estudantes mais novos ("pirralhos"), eles ficaram na sala de aula. De repente, Diego fez uma revelação: havia conhecido uma menina linda, chamada Radigunda.

- Ah, não. – disse Júlio.

- Não dá não. – concordou Gleidson.

Inocentemente, Clara pergunta:

- E aí pro nome dela?

Os meninos deram os ombros, sinal conhecido que quer dizer a mesma coisa que balançar a cabeça e sussurrar com mistura de pena e descaso: “meninas...”. Mas elas insistiram.

- Nome é só um rótulo. – disse Ana Paula. – Quer dizer, nem isso. É só uma etiqueta.

- Coisa horrível classificar as pessoas pelos nomes. – continuou Clara. As duas olharam para a terceira amiga ainda calada, Larissa. Logo ela, a Lala, feminista, de gênio forte, não podia ficar calada diante daquilo.

- Sei lá... – hesitou Larissa, constrangida pelo olhar das amigas. – Acho que concordo com eles.

- Quê?? – exclamaram suas amigas, enquanto os meninos vibravam pela vitória.

- Tipo, imagina um cara bacana pra caramba, com o nome Clarisbadeu. – argumentou ela. – Sei lá.

Fez-se um silêncio na sala, como de pêsames ao pobre Clarisbadeu.

- Égua... – disse Clara, como que surpresa por ver que aquilo realmente a afetava.

- Devíamos fazer uma lista de nomes proibidos. – sugeriu Gleidson. – Não que a gente vá excluir os que têm eles e tal, mas pra gente pelo menos evitar o contato.

- E a proximidade excessiva. – disse Júlio rindo.

- Pra começar, Radigunda. – disse Diego.

- Duzineide. – disse Gleidson.

- Clarisbadeu. – lembrou-lhes Larissa.

- Meretrides. – acrescentou Diego.

- Astrobaldo. – disse Clara embaraçada.

- Tudo que termina em “baldo”, acho. – disse Larissa friamente.

- Euácido. – disse Gleidson. – E se eu não me engano existe a versão feminina também, a Euácida.

- Leopoldo. – disse Clara.

- Hypotenusa. – disse Júlio.

- Sério, qual é o papo do nome “Clara”? – gracejou Gleidson.

- Robespierre. – disse Diego.

- Celidônio. – disse Ana, finalmente, com um pesar na voz de um passado escuro e amargo, trazendo um clima que só de dissipou com a campainha que marcava o fim do intervalo.
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