Sobre as linhas da folha de um caderno


Porque ninguém escreve sobre elas? Digo, não literalmente falando, mas vejam só a importância que essas linhas tem: elas organizam o nosso texto, pelo menos é pra isso que elas estão lá; Dão ordem às folhas e ajudam nas listas. Benditas sejam estas linhas!
Na verdade tudo isso é organização, eu é que não consegui pensar em outras vantagens. Podia até pensar mais algum tempo, mas tinha que postar hoje.

Um post sobre um pote


Prova de literatura no outro dia. Um amigo vai na casa do outro para “estudar”. Reparem as aspas. Ficaram no computador a noite toda, com o anfitrião mostrando ao convidado jogos violentos com gráficos impressionantes. “Muito firme!”, exclama o convidado.

Depois, não aguentando o encarar acusador das apostilas de literatura, eles vão estudar. Passava um pouco da meia-noite. Todos estavam dormindo na casa. O convidado era meio descuidado. Esses são os ingredientes da tragédia.

Descobriram que faltava fazer um trabalho. Precisavam de caneta. “A minha tá falhando”, diz um. “Tem um bocado no pote em cima da estante ali”, diz o outro. “Cuidado que a estante balança”. Você já sabe aonde isso vai dar, mas vou desprezar isso e descrever minuciosamente os próximos acontecimentos.

O convidado se estica para pegar a caneta. O pote lhe escapa. A estante balança. O pote vira. O pote e as canetas se preparam para a queda livre. Tudo vira um inferno.

Todos aqueles que já ficaram sozinhos tarde da noite (ou cedo da manhã) sabem como a madrugada tem o mau hábito de amplificar todo som feito naquele horário. Os mais experientes sabem que ela ainda insiste em fazê-los durar mais. Por exemplo, um BOOM se transforma em um BOOMMMM. Pior que isso é o silêncio que vem depois, que só serve para realçar o barulho que aconteceu. Todos estes efeitos são ainda mais eficientes quando há pessoas dormindo nos arredores.

Os dois amigos olham como que a foto do pote se virando. O mais perto podia muito bem evitar a queda, mas como já foi dito, era descuidado. O anfitrião sentia-se como como um torcedor quando vê a bola passando a um palmo da trave exposta. “Se fosse eu lá, a história seria outra!”. Mas não é ele lá. E as canetas em queda livre pareciam zombá-lo por isso. O pote dava cambalhotas no ar como que alegre pelo espetáculo que ele e o chão iriam oferecer.

Acredito que todos já ouviram falar sobre a Lei de Murphy. “Se alguma coisa pode dar errado, dará”. Mas talvez poucos conheçam suas variações. São mais ou menos como casos específicos de uma lei geral. Uma delas é “Se algo cai, ele cairá na posição que favorece maior dano a ele e ao corpo atingido pela queda (normalmente um pé ou, no caso de alimentos e cadáveres, um tapete caro ou uma roupa nova)”.

O amigo culpado apenas olha o pote caindo como gollum olhou seu precioso caindo no magma. Ouvindo When The Tigers Broke Free em algum lugar, o anfitrião pensa no seu futuro. A sua vida depois da queda do pote. A sua prova de literatura amanhã (ou, segundo o relógio, hoje). Ele toma uma decisão. Ele corre, se joga, se estica. Seus dedos tão próximos do pote... O pote tão próximo do chão...

Vou conseguir... Vou conseguir...

Maracutaia


- Já te disse, rapá, larguei isso.
- Largou nada! Tu vai fazer escola!
- Vai nada!
- Vai sim!
Estavam falando do Nonsense, os dois amigos. Os Estados Unidos levavam a culpa disso tudo.
- Os EUA ( pronuncia-se êua ) só leva a culpa porque tem a costa a larga - riu-se sozinho do próprio trocadilho. Um trocadilho safado, mas sem o êxito que almejara, um dia, alcançar.
- Me diz aqui, quem és tu pra julgar estapafúrdia canalhice ?
Um olha pro outro.
- Tomahawk é meu ator preferido! Adoro ele.
- Quem?
- Aquele de Forrest Gump.
- Iaí?
- Sei lá, vai digitando o que vier a tua mente, mas, por favor, arranja uma imagem decente. O resto sou eu com um punhado das origens na mão socando no texto um pouco de nada a ver, mas isso não significa ( it doesn't mean )  que eu vou ficar com os pés fincados aqui. Dá pra dar uma borboletada.

Voltei

Voltei.


Pronto, Rac.

Ser Racional


Embora algumas vezes eu discorde disso, sou a favor daqueles que pregam a morte das emoções. Isso é bem impossível, eu sei, mas falei no sentido não literal. Sou a favor daqueles que não se deixam morrer pelas emoções, ou que elas não tem quase papel nenhum em suas decisões. Exceções existem, mas existem também em tantas outras coisas que não faz mais sentido ter o trabalho em falar que elas existem aqui também.

Alguém pode imaginar uma pessoa assim como um psicopata sangue-frio, mas não falo disso. O ser quase-que-absolutamente racional saberia levar em conta que não há quase ninguém nesse estágio, e teria que ter cuidado com isso. Vamos tomar como exemplo Guilherme, que é um exemplo exemplar. Se sua filhinha chegasse da escola triste por que alguém havia rasgado seu desenho (“o melhor que eu já fiz!”), ele ainda a levaria para uma lanchonete, embora estivesse na hora dela fazer o dever de casa. Nada muito caro, porque aí também reside o ser racional.

Se sua outra filha, já maior (entenda: maior que dezoito anos), chegasse chorando por ter terminado com o namorado (“eu tinha certeza que era ele...”), Guilherme ainda saberia dizer coisas como “você tem os olhos lindos da sua mãe”, ou “você tão linda assim e ele ainda conseguiu terminar com você?”, ou “uma lágrima sua não vale a vida daquele desgraçado” (ser racional tem limites). E no outro dia, ele ainda serviria o café da manhã na cama dela.

Ouvindo uma piada ruim, Guilherme saberia dar o sorrisinho para não machucar o locutor. Ouvindo uma boa piada, ainda riria, tomando cuidado para sua alegria não ferir os menos alegres ali. Se Guilherme chegasse estressado do trabalho, ninguém perceberia. Estresse e raiva são mais contagiosos que qualquer doença, e ele, o racional, saberia disso. Indo a um velório de um amigo, ainda sentiria muito pesar e respeitaria o momento como ninguém. Talvez guardasse uma lembrança do falecido, talvez dedicasse algum tempo do dia a memória dele, mas sempre sabendo que o tempo passa, as pessoas mudam e se mudam, temos que pensar em nós que ainda estamos aqui.

Vejam que Guilherme não é intocável em relação a emoções, ele apenas as domina. O racional sabe que elas tem a tendência de se alastrar e de se impor a outras pessoas. Na sua tentativa de não contaminar a ninguém, ele deve ficar exausto, principalmente no início. Provavelmente recorreria a um papel e caneta, ou a um teclado e um blog. Guilherme sabe que o mundo talvez seria um lugar muito sem graça se todos fossem como ele, mas ele é necessário. Ele sabe como são complicadas as relações humanas.


Cansei. Digo sim. Cansei. Estamos a tempo demais sem posts, e os intervalos entre eles estão cada vez maiores. E odeio os posts falando de ausências futuras (esses sim parecem estar ficando mais frequentes). Cansei deles também. Me lembro dos tempos de outrora em que os posts eram bem mais frequentes e talvez mais interessantes. Me lembro de mim, interpretando as profundezas das experiências ordinárias e extraordinárias, vendo se rendiam um post. O mundo era um texto, uma parte de mim elaborava questões sobre ele, a outra parte respondia, e a resposta era um post. Uma parte de mim almoça e janta.

Isso é um bocado de bobagem, eu sei. Mas era tudo mais interessante antes. Me lembro de quando eu e o Theo concordamos que mesmo se não fossemos donos desse blogzinho, seríamos fiéis dele e ainda acharíamos ele bacana. Isso foi depois de jogarmos a modéstia no vaso e de darmos a descarga várias vezes.

- Sete vezes? - perguntei eu.

- Não, setenta vezes sete. - respondeu ele, mais sábio.

Claro que percebemos que aquilo não era grande coisa. Pouquíssima até. E eu ainda fiz um non-sense horrível. Vocês devem ter percebido que estou numa daquelas vezes que não sai nada de interessante e embora dê para reverter isso, dá um trabalhão e pô, são dez e meia de domingo a noite, sendo que vou sair amanhã cedo. Por uma semana.

Pô.
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