Eu fugi

                                 

Eu fugi, lembro. Não tinha por quê, antes eu tinha família e tudo, mas foi aí que eu fugi. 
A gente não sabe bem qual o momento que isso acontece ou o porquê, mas a gente faz isso várias vezes durante a vida, igual a um gato, você sabe? Os gatos estão ali, fazendo qualquer coisa, até que aparece aquele pontinho de luz. Experimente apontar um laser vermelho pro chão, quando um felino estiver por perto. É exatamente quando isso acontece que eles entram naquele estado que todo mundo entra alguma hora: atentos e distraídos.
Você os atrai pra algo inútil, que eles nunca pegarão, nunca os satisfará, mas nada os prenderá mais. Bem, é o que imagino, pelo que vi dessa jornada da vida que caminhei até agora. E tenho caminhado. Deveria haver um nome pra esse tipo de situação, entende? Pra quando a gente tá atento à distração. Algo como...adistraído. É assim que os gatos ficam: adistraídos. Sei lá se já existe essa palavra, nem me dei ao trabalho de pesquisar. Enfim.
Lembro que eu tava começando uma narrativa lá em cima, algo sobre quando eu fugi. E é verdade mesmo, eu fugi de verdade. Só que foi tipo assim: tudo estava bem em casa, tudo estava muito bem. Satisfeito e feliz, até que alguém apontou um desses lasers e boom! O circo estava armado e o palhaço era eu. 
Saí que nem gato, um gato bobo. Não conseguia pensar em outra coisa. "Vou pegar esse negócio", pensava. Não pensava muito bem, mas era isso. Daí que foram surgindo várias outras dessas luzinhas e eu fiquei louco. Não sabia quem a guiava, mas me jogava de um lado pro outro, uma marionete.
Quando a gente tá atrás dessas coisas, vive de cabeça baixa. A gente esquece que tem alguém nos olhando e percebendo tudo o que estamos fazendo. Gato bobo. A gente esquece que tem dono e que vai dar um trabalho danado ajeitar toda a bagunça que se faz tentando pegar a luzinha. E a gente nunca pega a luzinha. Não há esperança pra um gato bobo, a não ser que alguém pare com aquela brincadeira. É aí que a gente levanta a cabeça e vê o nosso dono. Se a gente tá sujo, ele nos dá banho; se com fome. tem comida. Quando, de alguma forma, essa brincadeira pára: voltamos a ser humanos, então choramos um pouco e pedimos perdão.
- Ai, eu não queria ter feito isso.
Não queria mesmo? Mas fez. E agora? O que se faz ao homem-gato? Um bom dono cuida dos seus.
Seria diferente? Não seria! 
A porta de casa continua aberta, o nosso dono ainda é nosso dono, não porque é nossa propriedade, mas porque ainda somos seus. A família é a mesma, porque ninguém desfaz laços de sangue. E a casa continua sendo casa. E nós? Esse é um bom caso. A gente só precisa voltar a ser gente, e não gato.

Fuga



A Noite tinha alguma coisa que o fascinava. Tentava explicar isso de várias formas diferentes. Talvez a forma mais usada fosse que a falta de luz diminuía sua percepção da realidade externa, o que realçava a sua imaginação. Algo como desligar o olho exterior para abrir o interior. 

Na escuridão era tão fácil de imaginar, por exemplo, um jovem inseguro percorrendo as ruínas de uma cidade, na noite forçada por densas nuvens, ouvindo ventos secos e gélidos arranhando os últimos tons de cor da paisagem urbana e sem vida. Conseguia sentir o que o jovem sentia. Seus sentidos sincronizavam-se com pouco esforço. Mas, quando ligava a luz, se encontrava cercado de mesmices. Sob a luz, a figura do jovem na cidade parecia mais uma dessas ilustrações em livros infantis cujas páginas eram viradas rapidamente pelos pequenos leitores.  

Era como se a luz criasse um excesso de fluxo de informações em sua mente. Sentia-se inundado por uma realidade sem graça. Para piorar, essa realidade sem graça insistia em ser real. Era como um monstro incansável do qual não se pode fugir por muito tempo, do qual logo você tem que virar-se para encará-lo e enfrentá-lo. 

Então, fazia o que tinha que ser feito. Enfrentava o monstro o dia todo, suando, pleiteando, até o anoitecer. Aí, desligava a luz. E o monstro não mais o via.

Sobre ser


Eu to afundado num mar sem fim
E nao me afogo
Porque, enfim
A gente, às vezes, morre por tão pouco
Mas também morre de tanto viver

Mas a vida não acaba, né?
A gente se acaba e nunca deixa de ser.

Sobre a Morte I


Tenho 19 anos. Quase 20. Não tenho toda certeza sobre isso. 
Acabei de ver uma senhora bem velha, morta. O corpo estirado no chão, muito sangue. Sangue misturado com a areia da rua.
Imagino que, de tão velha que era, não esperavam uma morte assim pra ela. Vi um de seus filhos, em frente ao cadáver. Olhava com muita calma pro corpo. 
O carro que a atropelara estava um pouco mais à frente, estacionado em fila dupla. Fico imaginando com que frieza ou desespero o (ou a) motorista conseguiu fazer isso - falo de estacionar.
A multidão estava toda em volta do corpo. Polícia. Perícia. Povo. Eu. Todos. E o filho velho, de boné preto, camisa preta, bermuda preta, parado na frente do cadáver. Todo aquele alvoroço, e ele ali. Parecia calmo.
Sei lá o que se passava na cabeça dele. Acho que nessas horas, aperta o peito...ou alivia. Sei lá.
Não sei explicar, não por falta de experiência. Na verdade, acho que é por isso mesmo. Mas a morte já visitou minha família. E vai visitar novamente. Não sei quando.
Mas vi a morta. Quis ficar triste, mas não fiquei. Não consegui. "Chorai com o que choram", a Bíblia diz. Sempre fui péssimo crente. Esforçado, mas péssimo.
Não senti tristeza, mas fiquei pensante. E a gente perde muito da vida. Sei lá, acho que perde. Tenho certeza.
A gente vive atento. Vive produzindo. Pensa muito. Sente pouco.
Porque tem pensamento que é assim, sabe: a gente só tem se sentir antes. Mas acho que tenha ficado difícil a lógica desse raciocínio. 
Deixe-me explicar...melhor não.
Enfim.
A gente é ensinado a viver pra sei lá o quê. Nos mandam ganhar a vida, confundem a vida com dinheiro e no fim a gente perde é tudo.
Não to mandando ninguém "viver a vida". Coisa mais redundante. Nem to falando de "Carpe Diem" . Mas...sei lá. Pensem um pouco mais.

Mais do que se pensa


Um... jambeiro. Ele... Hm... Er...

Fez um barulho de impaciência com a língua.

Não... Assim não. Hm... o Roberto? É, o Roberto. Ontem ele estava muito calado. Aconteceu alguma coisa.

Percebeu que era o mais longe que conseguiria chegar no assunto.

Isso tá mais pra fofoca que... Preciso de um tema. Amizade. Eu tenho sido um bom amigo? O que é ser um bom amigo? Hum...

Motivou-se. Poderia ser seu ponto de partida.

Amigo se apoiam juntos, não é? Tem que zelar pela felicidade um do outro... Mas não seria isso para todas as pessoas, mesmo as não-amigas? Mas é diferente!

Estava entusiasmado.

Amigos são pessoas muito mais próximas, por isso aumenta a responsabilidade desse trato de zelar pela felicidade e tal...

Lembranças de conflitos que teve com seus amigos no passado tomaram sua mente por alguns momentos. Antes que percebesse, estava com raiva. De repente levantou a cabeça como se tivesse acabado de acordar.

Não, emoções deturpam os pensamentos! Preciso esquecer...

Olhou aos redores procurando algo que o fizesse esquecer de sua raiva. Seus olhos pousaram numa interessante caçada de uma osga próxima a uma luz acessa que embebedava os insetos ao redor. O espetáculo terminou com o pertubador som das asas de um inseto moribundo na boca de seu carrasco. Embora estivesse torcendo para a osga - simpatizava com a cara das osgas -, sentiu pena do inseto. Tinha culpa se a luz o embriagava? Imaginou como seria se as pessoas perdessem seu comportamento normal simplesmente por olharem algumas coisas.

Será que não perdemos? Não... acho que é um exagero... Nós demoramos mais para perder a razão... acho. Não, com certeza, pô, concluiu, lembrando que o inseto nem sequer percebeu o gigante - em comparação a ele mesmo - predador, mesmo a osga estando em plena luz...

Mas se é a luz que confunde o inseto, então...

Inclinou sua cabeça, confuso. Achou que sua compreensão dos personagens daquele episódio animal era pequena demais para continuar com a reflexão. Mesmo sobre quando os personagens eram humanos, sentia que sua compreensão não era suficiente. Sentiu-se frustrado consigo mesmo, ou talvez com seu cérebro... ele não sabia se podia separar as duas coisas.

Mas se meu cérebro fosse eu, eu não ficaria tão confuso... Ou talvez...

Achou que a única conclusão satisfatória em que chegou em todo aquele momento foi que pensar era mais complicado que pensava. Passou a observar a osga, agora satisfeita, imóvel na parede. Simplesmente parada. Talvez fosse passar a noite toda assim. Olhou-a por alguns minutos. Levantou-se, e foi dormir.

Porque sempre caio nessa?

Certas coisas não entendemos - e isso é fato - certas modas, por exemplo. Tenho notado - e como tenho! - uma onda de citações literárias, uma onda de Caio Fernando Abreu! O porquê disso eu ainda não sei. Quem começou? Quem espalhou? Quem é o responsável? Como o descobriram ? Não falo dos de antes ou dos leitores regulares - o que são leitores regulares? - falo dos de agora, dos jovens, das meninas...dos usuários do Facebook. Caio Fernando Abreu por toda parte. 
Pela primeira vez que li achei que tinha sido alguma blogueira, alguma adolescente, mas pensei bem, na verdade pensei só um pouco mais e deduzi: não é só uma adolescente, é uma adolescente de uns 16 anos. Ledo engano. Mas deve-se saber, que, com cautela, pra falarmos de um autor devemos lê-lo. Fi-lo. Não resisti muito. Me rendi. Voltei a ler Quintana. "Chega de me doer".

Certa vez tive um blog...


   Certa vez, com um amigo, criei um blog. Certa vez. Acho, pessoalmente, que não posso dizer quão certa era a oportunidade, mas aproveitei. Sim, eu aproveitei. Achava que escrever qualquer coisa sobre qualquer coisa e forçar um pouco a barra - e como forçava - ah...eu achava fantástico. Hoje não acho. Pensava que faria sucesso, mas só meus amigos comentavam, só os verdadeiros amigos.
   Certo dia apareceu um seguidor, um desconhecido. Quem era? Não sei até agora, mas também tinha um blog, o qual foi excluído certo tempo depois. Bastard era o nome. Era. Depois veio outro, o qual também sumiu. Vale dizer que o primeiro blog excluído foi excluído por sabe-se-lá-quem, tal qual o segundo. Eu e meu amigo Rac'meg admirávamos o tal blog Bastard. Um cara que escrevia bem, pra ninguém ler, com regularidade e por considerável tempo. Porque? - Perguntávamos. Mas daí que sumiu o blog do cara e o cara que seguia o blog. A gente esqueceu.
   Passado o tempo - não exatamente o tempo todo, só o tempo entre aquilo e o que se seguiu - o nosso humilde blog mudou. Mudou, mudou, mudou. Ficou mais bonito, mais seguidores (ainda que poucos), mais...sei lá. O blog mudou, depois emudeceu. Fez lá seus gracejos uma vez e outra, mas agora voltou.
Eu sinceramente penso: será outro?
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